O que Responde o Psicanalista? Ética, Clínica e o “Saber Ser Ali”

Vista panorâmica do Jardim Botânico do Rio de Janeiro com palmeiras imperiais, representando o local do VII Encontro Internacional da IF-EPFCL sobre ética e clínica psicanalítica

O que Responde o Psicanalista? Ética, Clínica e o “Saber Ser Ali”

Autor: Juan Guillermo Uribe Tradução: Vera Pollo Evento: VII Encontro Internacional da IF-EPFCL – Rio de Janeiro, 2012


A Pergunta e a Demanda

A questão “O que responde o analista?” é complexa e pode ser examinada como um cristal que gera diferentes difrações. A pergunta supõe, inerentemente, uma demanda de resposta, pois o analisante demanda felicidade ao analista — uma forma abreviada de caracterizar a “demanda” na análise. Por trás dessa busca, pressupõe-se um saber ao qual a demanda se dirige e um lugar de onde se espera uma possível resposta.

Essa resposta do analista pode manifestar-se de diversas formas: um silêncio, uma afirmação, uma negativa, um gesto, um olhar ou até um suspiro. Contudo, essa resposta pode implicar certa ambiguidade ao indicar que toda demanda, em última instância, se dirige ao Outro.

O Saber Inconsciente e a “Tapeação”

O dispositivo analítico fundamenta-se no saber inconsciente, que Freud qualificou como um “saber que não se sabe”. É um saber que o paciente manifesta na mensagem cifrada de seus sintomas, mas que ele próprio ignora, cabendo ao analista o papel de leitor que decifra esses enigmas.

Lacan diferencia o engano da tapeação, afirmando que “somos tapeados até o gorgomilo”. A consciência é tapeada de tal forma que, quando o sujeito afirma “Eu penso”, ali mesmo se configura o abismo de que ele pensa onde não é e é onde não pensa. Quanto mais o sujeito “crê em si” e afirma uma falsa identidade, mais extraviado ele se encontra.

O Caminho da Transferência

Embora o sujeito esteja tapeado em relação ao inconsciente, a transferência, com seu caráter equívoco, abre uma via para a “des-tapeação”. O saber da experiência analítica não serve apenas para não sermos tapeados, mas deve ser acompanhado por um “saber entrar” e um “saber sair” das questões fundamentais que o clarão da análise revela.

Lacan utiliza três expressões guias para lidar com o saber que não se sabe:

  1. Saber haver-se com elas (savoir-y-faire).

  2. Saber fazer (savoir faire).

  3. Saber ser ali (savoir-y-être).

A Escolha pelo “Ser”

A opção pelo título “Saber ser ali” (em vez de estar) fundamenta-se no fato de que o sujeito do inconsciente não possui estatuto ôntico para “estar” como um ente. O sujeito ex-siste em seu ser dividido, um ser de pura representação. Sua satisfação não provém meramente da pulsão, mas de um modo de gozar de sua ex-sistência do lado do real como impossível.

Conclusão: A Resposta do Analista

O que responde, então, o psicanalista? Como ser falante, o analista também está submetido à condição de tapeado. No entanto, Lacan oferece a lógica do significante como um instrumento para atravessar essa fronteira. Embora se utilize das matemáticas para demonstração, o analista deve estar advertido de que a verdade está necessariamente conectada à pulsão e, no horizonte da sexualidade, o corpo permanece sempre como o referente último.


Medellín, 5 de maio de 2012.

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O presente texto integra as produções do Campo Psicanalítico, instituição dedicada à transmissão, ao estudo e à prática da psicanálise.

As reflexões aqui apresentadas se inscrevem no trabalho de investigação teórica e clínica desenvolvido no âmbito da instituição, orientado pela tradição freudiana e lacaniana.

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